Não é só no Brasil que a confiança está em baixa. Quando tiramos a cabeça para fora da água e damos uma olhada para o lado, o que se vê é que a confiança passa por uma crise mundial, monitorada com atenção por especialistas, que acreditam que ela pode trazer consequências profundas para a humanidade.

A Edelman Trust Barometer, uma pesquisa anual, escancara a situação de forma perturbadora. A publicação não deixa espaço para dúvidas acerca da magnitude do problema ao escolher “An Implosion of Trust” como título do seu resumo executivo.

A pesquisa analisa a confiança em diversas entidades, principalmente governos, empresas, mídia e ONGs. É até surpreendente descobrir que, em termos relativos, o Brasil nem está tão mal na foto, ficando no pelotão intermediário. Porém, ao se colocar uma lupa sobre os resultados, vemos que a situação do governo brasileiro é sinceramente vergonhosa.

O percentual de confiança nesse caso é o terceiro mais baixo do mundo, sendo de apenas 24%. E olha que tem muita gente que até acha esse índice inflado! Como se poderia esperar, ainda segundo a pesquisa, a corrupção é o fator essencial que explica essa posição absolutamente incômoda.

Confiança numa perspectiva histórica

Você já leu o livro Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari? Se não leu, considere a leitura, pois ajuda a entender muita coisa que está acontecendo no mundo. No livro, Harari detalha como e porquê não foi apenas o cérebro grande e potente que levou o Homo Sapiens a dominar o planeta.

A habilidade de compartilhar ideias, conceitos e narrativas foi um atributo tão ou mais relevante para essa conquista. Cérebros grandes e até maiores, outros hominídeos também tinham; e estes pereceram… Ao compartilharmos histórias, criamos deuses, estados, empresas, dinheiro, entre outras realidades inventadas amplamente aceitas que, cada uma em sua era, nos permitiram colaborar em grandes números e de forma flexível, fonte de nossa incrível força“que ergue e destrói coisas belas”, como diz a música.

O estado moderno e democrático é, em si, uma destas realidades inventadas na qual bilhões de humanos acreditam. Existem centenas de realidades inventadas, como a justiça, os partidos e o eleitorado, que só têm significado porque os humanos acreditam nelas.

Quando deixamos de acreditar ou questionamos essas realidades, elas se enfraquecem.

As pessoas acreditam que o estado democrático deveria ter como função primordial garantir que as coisas estão funcionando de acordo com o bem comum ou com a vontade da maioria. Se não há confiança de que estas instituições estão contribuindo, pode-se questionar todo o funcionamento do sistema. Daí a própria democracia se põe em xeque.

A máquina da confiança

Em outubro de 2015, a The Economist, uma das revistas mais respeitadas, lidas e citadas do mundo, trouxe o tema Blockchain à capa. O desafio de apresentar a tecnologia para um grupo que não era nem de cyber punks, nem de geeks, nem de investidores mega arrojados não era dos mais fáceis. Ainda agora, em 2017, explicar o que é e para o que serve uma Blockchain ainda não é exatamente simples.

Assim como a Internet, alguns especialistas caracterizam a Blockchain como uma tecnologia de fundação, dada a amplitude de sua aplicabilidade.

Por isso, existem mesmo inúmeras formas de defini-la. Uma boa definição é aquela que consegue sintetizar que novo conceito ou requisito fundamental a tecnologia oferece para o mundo.

No contexto atual do planeta, foi muito feliz a escolha da The Economist em apresentar a Blockchain como a “máquina da confiança”. 

Aumentar confiança não é só retirar o intermediário

Quando se diz que Blockchain cria confiança, a explicação mais comum é que ela elimina a intermediação.

Ou seja, pela primeira vez, você consegue enviar pela Internet algo de valor (um ativo digital, na linguagem financeira) de uma pessoa para outra sem que seja necessário um intermediário para garantir que tudo ocorreu bem na transação, sem truques ou fraudes das partes envolvidas.

Com contratos inteligentes (smart contracts), a coisa fica ainda mais poderosa, sendo possível obter efeito similar a um contrato entre partes sem que estes precisem sequer se conhecer.

Quando pensamos em governo, porém, existem questões específicas. Não é tanto o governo que precisa realizar transações com pessoas ou organizações nas quais não exista confiança mútua.

O requisito crítico de confiança no caso de governos é fazer com que a sociedade como um todo, muitas vezes fora da transação em si, confie nas transações das quais o governo toma parte.

Isso tem bem pouco a ver com retirar intermediários e mais a ver com os registros imutáveis que a tecnologia proporciona.

Mais que dados abertos, transações abertas

Há bastante tempo, busca-se atender a demanda por confiança com iniciativas de dados abertos. Embora extremamente relevantes e com excelentes serviços prestados à nação, dar publicidade a dados gerados dentro dos firewalls não parece mais suficiente em diversos casos.

É preciso ir mais longe e garantir que a sociedade confie nas informações fornecidas mesmo sem confiar no ente que as apresentam.

Uma solução para isso é oferecer mais do que transparência aos dados. É garantir que a transação em si seja aberta. Seria como se cada transação realizada pelo governo acontecesse em praça pública, diante dos olhares atentos dos cidadãos.

Vitalik Buterin, criador e líder da Ethereum, a blockchain pública para smart contracts mais conhecida do mundo, dá uma boa pista de como a coisa pode se dar. Ao responder recentemente um post no Reddit que perguntava quais seriam os casos de uso que governos deveriam priorizar, Vitalik cravou logo no primeiro item da lista (tradução livre):

Uma criptomoeda emitida pelo estado para ser utilizada internamente pelos governos, com o propósito de aumentar a transparência de onde os recursos vão, desde o ponto da coleta de impostos até o ponto do último gasto.”

Bingo, Vitalik!

Para não ficarmos só no Vitalik, o assunto também é fartamente abordado nessa aula do professor Antonis Polemitis, do MOOC sobre moedas digitais, que é parte do mestrado da Universidade de Nicosia, onde leciona também o conhecidíssimo Antonopoulos. Veja a aula:

Setor público na praça pública

É possível imaginar vários outros processos relevantes que podem ter suas transações registradas em uma Blockchain, com grande impacto para os cidadãos.

Para citar só um exemplo bem comentado, diversos países estão caminhando para colocar registros de propriedade de bens imóveis em Blockchains, havendo até provas de conceito no Brasil.

Dubai foi mais longe e vai colocar todos os dados públicos na sua blockchain pré-Satoshi até 2020.

Todavia, não dá para negar que, quando se trata de governos e desconfiança, o grande vilão é o “vil metal”. Ou a sua aplicação, para ser mais preciso.

Transações financeiras governamentais são o olho do furacão. Assim, parece inevitável que o futuro reserve lugar para uma moeda que torne possível o rastreamento dos gastos de todo o governo brasileiro.

Essa moeda seria como uma pedra preciosa que inspira transparência e pode ser encontrada na nossa terra, como os cristais. Por isso, escolhemos chamá-la de eCristal.

O eCristal seria uma versão Blockchain do Real, emitido pelo Banco Central do Brasil, mas com missão específica de rastrear todas as captações e gastos de recursos do governo. Mais ou menos como sugerido pelo Vitalik: ao captar o imposto, o Real seria convertido para eCristal.

Toda a movimentação de recursos dentro do setor público (federal, estadual, municipal e três poderes) desde o recolhimento de impostos até o pagamento ou transferência para uma entidade não governamental seria realizada com eCristal.

Parece razoável admitir que o eCristal também fosse aceito para pagamento de impostos. Todas estas transações seriam totalmente transparentes e acessíveis em tempo real.

Assim, ao pagar uma empreiteira para construir uma estrada, já seria possível levantar problemas nos gastos antes mesmo de o primeiro trator começar a terraplanagem.

Observe que um eCristal é diferente de um também hipotético eReal. Esse segundo seria apenas a versão digital do Real. Imagina-se que o eReal não teria a mesma função de transparência.

Apesar disso, é possível imaginar uma convergência, onde a mesma moeda seja tratada de formas diferentes, já que são ativos programáveis.

Existem questões muito relevantes a serem discutidas, como as restrições da própria tecnologia, que ainda não parece capaz de suportar o volume imenso de transações que seria necessário.

Há também decisões relacionadas ao sigilo, pois, embora a privacidade não se aplique aos gastos públicos, há de se pensar como proceder quando o eCristal chega nas mãos da iniciativa privada: vira eReal; continua eCristal; deve-se tratar caso a caso?

Esse debate é longo e relevante. Pois que comece logo!